
Em alguns idiomas "ser" e "estar" são expressos através do mesmo verbo. As palavras que compõem um idioma dizem muito sobre como construímos os conceitos na nossa cabeça, qual a dimensão que damos as coisas, qual o espaço mental que temos para ampliar nossa compreensão dos fatos, do novo, do diverso... já disseram até que só é possível filosofar em alemão.
Bem, em português, "ser" e "estar" são verbos diferentes..., como já sabemos... rss. E de fato são coisas diferentes. Você não "é", automaticamente, só por que "está"... e vice-versa.
Ai, ai... tudo isso só por que eu queria falar sobre a relação entre estar no mundo e fazer parte dele.
Na verdade, queria chegar num ponto mais específico: guetos.
Essa palavra sempre vem a minha cabeça quando recebo alguma propaganda, leio alguma notícia, etc, a respeito de algo feito, criado ou dirigido especificamente para um grupo de pessoas com algo em comum, geralmente por alguém que tem esse "algo em comum"... ou não.
No âmbito pessoal, é, ou seria, bastante lógico e até saudável, você concluir que, para existir integralmente, é interessante que você se destaque, se diferencie. Mas, quando pensamos em grupos, é bem esquisito verificar que, às vezes, para fazer parte, ou para conseguir sobreviver, você tem de se separar.
Assim, nossotros gays, por exemplo, criamos, lugares específicos, revistas específicas, livros, serviços, roupas, linguagem, etc etc e mais infinitos eteceteras. Falamos de nós para nós mesmos. Somos como somos para nós mesmos. Pra geral, só estereótipos e clichês.
Antes de qualquer coisa, sempre é mais do que bom lembrar que nada é bom ou mau em si, certo? Tudo depeeeende. Isso sem falar que nada é SÓ bom ou SÓ mau.
Mas será que o que nos protege, "liberta" e fortalece, num primeiro momento, não acaba por nos empurrar cada vez mais para um nicho periférico: os diferentes (na melhor das hipóteses)?
Sem dúvida temos nossas necessidades específicas. Sem dúvida união é imprescindível, unidade é fundamental e ter um objetivo, uma direção, é o ideal, principalmente nesse mundo hostil a quem não se enquadra nos padrões artificialmente construídos que nos são impostos e nos submete a todo tipo de violência e preconceito.
Necessidade de discutirmos, trocarmos experiências e vivências, descobrirmos qual é a nossa identidade, nos reconhecermos no semelhante, construirmos nossos valores e nossa história com dignidade e respeito, tudo isso é urgente!
Mas falarmos sobre nós para TODOS tem um efeito muito mais transformador, revolucionário e eficaz no que se refere à inclusão e naturalização.
Assim, nos unirmos para produzir a informação é mais do que bem-vindo e inteligente, é uma questão de sobrevivência. Mas nos dirigirmos APENAS aos "iguais" surte, em pouco tempo, o efeito da segregação.
Isto posto, acho que vale a pena a reflexão.
O que não podemos é criar um molde de como as coisas devem ser, fazer tudo a partir desse molde e desligar o raciocínio. Cada problema tem a sua solução e, PRINCIPALMENTE, seu jeito de ser resolvido.
Afinal, eu quero um samba feito só pra mim?
Eu quero um samba
(Haroldo Barbosa e Janet de Almeida)
Eu quero um samba feito só pra mim
Eu quero a melodia feita assim
Quero sambar porque no samba eu sei que vou
A noite inteira até o sol raiar
Ah! Quando o samba acaba, eu fico triste então
Vai melancolia, eu quero alegria dentro do meu coração
Ah! Quando o samba acaba, eu fico triste então
Vai melancolia, eu quero alegria dentro do meu coração
Eu quero um samba feito, um samba feito só pra mim
Eu quero a melodia feita assim
Quero sambar porque no samba eu sei que vou
A noite inteira até o sol raiar
Para ouvir:
http://www.mp3tube.net/br/musics/Joao-Gilberto-Eu-Quero-um-Samba/198171/