quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Queer = desconstruir, revolucionar e evoluir


Muita gente ouve e usa o termo "queer" sem saber do que se trata. Aliás, sem ter nenhuma noção. Acha que é só mais um termo "muderninho" e descolado para designar os homossexuais. Alguns pegam o bonde andando e acabam confundindo ainda mais as coisas. Outro dia me deparei com uma dessas que perdeu o bonde, o que não seria um grande problema se a tal pessoa não escrevesse para o auto-intitulado "maior portal lés" (ou coisa parecida). Aíííííí.... o que deveria ser informação passou a ser um "pelo que eu entendi" (literalmente) e outras coisas que tais. Pena que ela parece não ter entendido naaaaaaaaaaaada.

Cacilda! Não seria o caso de ir buscar informação, aprender, conhecer, antes de sair escrevendo um "pelo que eu entendi" ???? E pior, dizer que não "concordou muito"...??? Putz grila!!! Fala sério...

Bom... os Estudos Queer são o que há de mais revolucionário que se possa conceber. Ele vai ao cerne da cultura, identifica e aponta onde o caminho escolhido pela humanidade vai dar para chegarmos aonde estamos hoje, ou seja, sem ferramentas para evoluirmos como seres e entendermos o mundo que nos cerca. Mundo esse que, por ter sido moldado dentro de parâmetros completamente artificiais, no que diz respeito à sexualidade, não dá mais conta de enquadrar toda a diversidade, esta sim natural, que existe.

Surgido nos anos 90 da reunião de um grupo de intelectuais, bastante diversificado, que passaram a utilizar o termo "queer" para descrever seu trabalho e sua perspectiva teórica, os Estudos Queer propõem a desconstrução, a não conformidade e, principalmente, são contra a normalização, seja ela qual for, venha de onde vier. Sendo assim, se opõem, não só a heteronormatividade compulsória, mas também ao caráter de integração, normalização, estabilidade e assimilacionismo que norteia o movimento LGBT a partir de sua organização nos anos 70.

Queer é a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada.

Ser Queer é atravessar fronteiras, explorar ambigüidades, explorar a fluidez, apreciar a transgressão, principalmente no sentido de questionar naturalizações e superioridades. Exemplo: por que a heterossexualidade é superior?

Para a Teoria Queer não é suficiente denunciar a negação e o submetimento dos homossexuais. É necessário desconstruir o processo pelo qual alguns sujeitos se tornam normalizados e outros marginalizados. Além disso, nos esclarece/mostra/explica que, como a heteronormatividade é artificial e imposta, é necessário uma constante reiteração das normas sociais para garantir que esta identidade sexual (hetero) é legitima ou a única a ser considerada "normal".

Enfim... os Estudos Queer são fascinantes, vastos, e aqui tive a pretensão de dar apenas uma pincelada rápida e motivá-las a ler o EXCELENTE trabalho da Profa Guacira Lopes Louro que o UVA NA VULVA disponibilizou sobre o assunto. Vale a pena, posso garantir.

http://www.uvanavulva.com.br/blog/teoria-queer

Os Estudos Queer, sem dúvida, mudam a nossa visão do mundo, abrem novas perspectivas e trajetórias para o que antes achávamos não ter saída ou solução.

Ser Queer, definitivamente, não é para qualquer um... mas está ao alcance de todos.

8 comentários:

Marcia Paula disse...

Olá,querida

Sempre bom passar por aqui,adorei sua "pincelada" sobre o assunto,muito esclarecedor.Entendo heteroqueer como o termo aproximado em português para uma das suas definições e a heteroflexibilidade como uma possibilidade para um heteroqueer.Talvez isso explique por que tanta gente anda questionando as héteros que beijam mulheres e vice-versa.O que você acha?Sei que foge do tema central exposto por você,mas não seria uma nova revolução na expressão da sexualidade?Então por que tanta gente chiando entre as lésbicas? Seria uma reação psicológica "exagerada" contra a heteronormatividade,impor uma total falta de homoflexibilidade?Beijos.

LD. disse...

Oi, Márcia, é sempre um prazer receber sua visita e comentários. Adoraria poder desenvolver melhor o assunto com você, mas, pra isso, precisaria entender melhor a sua idéia. Confesso que termos como "heteroflexibilidade", "heteroqueer" e outros, são desconhecidos para mim. Não vejo como agregar qualquer outro termo ou classificação ao conceito de Queer, que por si só já desconstrói tudo isso.

O Queer exige um desprendimento e uma desconstrução de padrões fixos. A experimentação e a curiosidade fazem parte do Queer, mas não se trata de flexibilidade e sim de fluidez, uma vez que o Queer rejeita conceitos, normas, padrões, etc.

Espero que possamos trocar mais idéias sobre o assunto, ok?

Beijos
LD

Marcia Paula disse...

Então,justamente isso,se a pessoa rejeita um padrão ela pode circular,fluir como você diz.Esses termos também são novos para mim.Acho que a humanidade tem necessidade de nomear o inominável,sei lá.Li certa vez que heteroqueer é o hétero que rejeita a heteronormatividade,entre outras coisas.Então heteroflexível seria o hétero que tem eventualmente uma relação homossexual,mas mantém sua identidade HT.
O que me espanta hoje em dia é ver tanta indignação diante da mudança de cardápio...rsrsrs.Rejeitar a norma sem colocar em pratica não dá,né?Eu sou lésbica,não rejeito rótulos,pelo menos não os que não me ofendem,mas tenho visto algumas manifestações muito radicais acerca da nossa sexualidade.Muita crítica em cima de lésbicas que querem beijar homens,por exemplo.Nesse sentido acho que os héteros ou melhor os héterosflexíveis e não normativos estão dando de dez a zero na gente.Logo nós que somos os "libertários" não conseguimos aceitar as mil sexualidades da humanidade?De repente é só um desabafo,não gosto de generalizar,mas que me causa espanto,ah isso causa sim.Beijos.

Ana Duarte disse...

Meninas, não vou entrar nessa briga de cachorro grande... rs
Acho o conceito Queer fantástico porque liberta o ser de qualquer padrão sexual ou comportamental e concordo com a Márcia que a saparada anda doida com essas "desgarradas" que resolvem beijar homens. Eu mesma beijei e trepei muito com eles, durante anos, e não achava nada mal (só não conseguia gozas, mas isso era um problema meu e não deles).
Quando comecei a me relacionar com mulheres achei maravilhoso, uma sensação de liberdade absoluta poder ser e fazer o que eu quisesse. Ainda acho isso.
Mas tô aqui pra outra coisa (me perdi, perceberam, né?). Queria saber se posso passar seu e-mail para uma pessoa que está montando um novo portal lés e está querendo nossa ajuda. Me parece ser interessante, mas ainda tenho poucos elementos.

Se achar legal, me mande um e-mail pra anaduarte81@hotmail.com

E Márcia, é sempre um prazer pra mim ler VOCÊS duas.

Beijão

LD. disse...

Márcia, a questão (ou confusão) nesse caso, é que uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. Ser queer não tem nada a ver com o que você chama de "flexibilidade", mas com multiplicidade, com a tentativa de demonstrar que os homossexuais são iguais aos heterossexuais, ou seja, de que todos são “normais”, que todas as orientações são NATURAIS.

Ser queer é adotar uma postura de não assimilação e de oposição aos objetivos inclusivos do movimento por direitos humanos gays dominante. Ser queer é não se rebelar contra a condição marginal, mas desfrutá-la. É uma política que adota a etiqueta da perversidade e faz uso da mesma para destacar a ‘norma’ daquilo que é ‘normal’, seja heterossexual ou homossexual. É desconstruir a idéia de uma normalização ou normatização que determine a supremacia de um grupo sobre outro.

O direito à experimentação e a curiosidade NÃO são sinônimos de queer. Então acho que devemos deixar essa questão a parte e discutir os comportamentos que você descreve a partir de outra(s) perspectiva(s).

Quanto aos comportamentos citados por você, penso que se encaixem melhor na categoria de prática e não de orientação. A visibilidade leva a curiosidade, que leva ao desejo da experimentação e, consequentemente, à prática. Há quem veja esses comportamentos como fase, modismo ou simplesmente liberdade. Seja como for, o que não podemos confundir ou esquecer é que a prática sexual é uma coisa e a orientação sexual é outra. Ou seja, identidade é identidade, é fixa e não é descartável.

Quanto a rejeição dos LGBTs a esse tipo de comportamento, acho perfeitamente compreensível, já que somos nós que sofremos as perdas e danos, sem falar no custo do preconceito e da discriminação que essa sociedade, baseada na heteronormatividade, nos impõe. Ser gay, lésbica ou transsexual não é dar uma voltinha no parque de mãos dadas num lindo domingo de sol.

Transgredir, ter uma atitude libertária, não significa aceitar tudo sem um senso crítico. A anarquia significa ausência de coerção, e não ausência de ordem.

De qualquer forma, acho que palavras como "libertário", "transgressor" e/ou "anarquista", atualmente, passam consideravelmente longe da ideologia, da consciência e das políticas LGBTs.

Beijos

Míriam Martinho, jornalista, editora do site Um Outro Olhar, ativista de muitas causas e muitos causos. disse...

LD,

adorei o texto e a foto. Posso reproduzir a img no CCC?

Bj,

Míriam

Marcia Paula disse...

Oi,querida,

Agora as coisas estão se encaixando.Obrigada pela conversa de alto nível.Beijos.

AP disse...

Interessante o blog e a discussão, poré acho que utilizar termos como Heteroqueer e heteroflexibilidade é ao contrário fixar num modelo hetero, como se esse fosse ainda o padrão e as outras situações mesmo vivenciadas pelos "hetero" simplesmente Outras.
A proposta da teoria queer é justamente romper com os binarismos presentes na sociedade e refletir sobre a possibilidade da multiplicidade. Nesse sentido, acho que o termo queer apenas (sem esse prefixo hetero) atenderia ao que estava sendo proposto como conceito/possibilidade.
Abraços

Ana