sábado, 4 de outubro de 2008

A Importância do Conteúdo


Interessante a natureza, né? Nada é totalmente bom ou mau. Para cada vantagem existe uma desvantagem... e assim por diante. Assim é em relação a tudo, desde sempre. Um bom jeito de verificar isso é quando vemos uma determinada atividade se transformando. O que sempre foi de um jeito, por um motivo qualquer, como tecnologia, por exemplo, começa a adquirir novas formas, novos espaços, se torna acessível, ao alcance de todos. Estamos assistindo isso com a comunicação em todas as suas dimensões. E o grande agente transformador, logicamente, é a Internet.

Parênteses. Estava aqui me lembrando de todas as transformações tecnológicas das quais fui testemunha e me lembrei do seguinte: no meu primeiro dia de escola, minha mãe, percebendo que eu não estava nem um pouco feliz com a aquilo, me deu um apontador no formato de um telefone, um telefonezinho verde, e me disse que, qualquer coisa, eu podia ligar pra casa. Hum... hoje, provavelmente, eu levaria meu celular e, certamente, ligaria pra ela cinco minutos depois dela virar a esquina, tipo "me tira daquiiiiiiii!!!!!". Fecha parênteses.

Mas o que tem me chamado a atenção nessa historia toda de tecnologia, e mais objetivamente Internet, é o que ela tem feito com a informação, que, como todos sabemos, é também sinônimo de "poder".

Tornar a informação acessível a todos é bacana. Sem dúvida! Tornar acessível a qualquer um produzir informação é bacana também. Porém, isso envolve uma série de questões e riscos que podem não ser nada bacanas.

Sem ter a intenção de ser chata, o que eu quero propor é uma reflexão. E felizmente não estou sozinha. Por algum fenômeno, "lei da atração", inconsciente coletivo, tenho esbarrado em entrevistas, textos, matérias que corroboram com minhas sensações sobre a qualidade da informação presente na Internet e, mais, sobre como esse veículo tem se tornado um grande facilitador na propagação de "informação". E é justamente por isso que os critérios na utilização desta ferramenta precisam ser cada vez mais considerados.

Isto posto, gostaria de compartilhar com vocês a entrevista que a jornalista Lucia Guimarães concedeu ao "Caderno 2" do jornal "O Estado de São Paulo" e que está na edição de hoje (04/10/2008).

Reflitamos, pois:

"Tecnologia criou crise de conteúdo''
Na era do blog, não se pode abdicar da consistência cultural, diz Lúcia Guimarães, que estréia segunda-feira nesta página

Ubiratan Brasil

Lúcia Guimarães sempre gostou de enfrentar desafios. E os mais recentes chegam quase simultaneamente: amanhã, ela se despede, ao vivo, do programa Manhattan Connection, que ajudou a criar e há 16 anos é exibido pelo canal por assinatura GNT. E, na segunda-feira, ela inicia sua colaboração com o Estado, publicando quinzenalmente uma coluna no Caderno 2, revezando com Matthew Shirts.

Nascida no Rio de Janeiro, Lúcia vive em Nova York desde 1985. Lá, exerceu diversas funções (editora internacional da Rede Globo, redatora do Jornal Nacional, produtora do jornalista Paulo Francis), mas sempre preocupada com o viés cultural. Em Nova York, centro criador de grandes tendências que se espalham pelo mundo, Lúcia desenvolveu um faro raro para o que é realmente cultural, e não apenas modismo descartável.

Esse é o assunto, aliás, de sua primeira coluna, em que comenta os 40 anos da New York Magazine, revista que separa o joio do trigo entre o turbilhão de novidades culturais produzidas na cidade. Com esse texto, Lúcia retoma o hábito de comentar e noticiar o que realmente acontece em Nova York para o Estado - em 1997, ela participou do Manhattan Connections, crônicas que eram publicadas no então Caderno 2 Especial Domingo, ao lado de Lucas Mendes, Caio Blinder e Nelson Motta. Sobre o retorno, ela respondeu às seguintes questões por e-mail.

Que tipo de assuntos você pretende tratar em sua coluna no Estado??

Em Nova York, pode-se cobrir grandes eventos culturais ou usar a âncora da cultura local para discutir idéias, comportamento. Então, espero poder circular nesse território, seja destacando um evento ou fazendo o perfil de protagonistas culturais ou escrevendo sobre temas que nos interessam no Brasil, usando a experiência local.

Aliás, qual é o tema da primeira crônica?

São os 40 anos da revista New York, que lançou uma edição especial com mais de 300 páginas. Agora sob o comando de Adam Moss, publica uma seleção sobre o que é brilhante e desprezível na alta e baixa cultura. Diferentemente da New Yorker, que tem uma reputação mais literária, a New York Magazine preocupa-se com tendências.

Qual deve ser hoje a função das crônicas que os jornais publicam?

Acho importante distinguir entre colunista e cronista. O cronista é literário e atemporal. O colunista é tópico e opinativo. Espero não ser auto-indulgente com o privilégio de ter um espaço para opinião. Espero ter o talento para transformar flagrantes mundanos, apesar de distantes geograficamente do leitor do Estado, em uma crônica.

Você acredita que um cronista celebra as vantagens das experiências pequenas e corriqueiras?

Sim, eu sou fã da revista mais bem escrita do mundo, a New Yorker, e acredito que uma boa história bem contada, por mais obscura ou corriqueira, pode capturar a imaginação do leitor.

Até que ponto um cronista pode (ou deve) ser um provocador?

O colunista pode ser um provocador, o cronista é um estilista. Mas nós estamos encharcados de polarização ideológica e de narcisismo editorial. A mídia americana e, infelizmente, cada vez mais a brasileira, está cheia de dardos à procura de alvos. Isso empobrece a polêmica. O polemista tem sido substituído pelo poseur.

Atualmente, com o crescimento do número de blogs, qual o perigo de a crônica em jornais desaparecer?

Não tenho como avaliar isso, mas é claro que os jornais estão enfrentando um enorme desafio. Como a necessidade é a mãe da invenção, já vejo soluções híbridas que acomodam as mudanças tecnológicas. O que eu acho importante é, depois desse período de susto, que os editores e as pessoas com poder de decisão aplaquem o instinto populista que tenta igualar qualquer pessoa com acesso ao teclado do computador. Paginar um grande articulista online ao lado de uma enxurrada de comentários inconseqüentes ou preconceituosos dilui a importância das idéias do artigo e não eleva o discurso das pessoas que querem se expressar. Não há nada errado com hierarquia. Especialmente agora, quando qualquer pessoa pode ter o seu blog, é importante as empresas de mídia não abdicarem do seu valor, da sua consistência editorial. A tecnologia criou não só uma explosão mas também uma crise de conteúdo.

Link original paara a matéria: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081004/not_imp253096,0.php

5 comentários:

Marcia Paula disse...

Você vai se tornar especialista nesse tema.Oba!Adoro suas reflexões.Bjs.

Águeda disse...

Eu entendo e concordo contigo quando falas sobre a qualidade da informação na internet e sobre a (falta de?) responsabilidade dos blogueiros. Mas não sei se gosto exatamento do que Lucia falou:

"Paginar um grande articulista online ao lado de uma enxurrada de comentários inconseqüentes ou preconceituosos dilui a importância das idéias do artigo e não eleva o discurso das pessoas que querem se expressar. Não há nada errado com hierarquia..."

Não sei nem explicar por que não gosto, afinal não parei para pensar no assunto como tu. Mas achei uma argumentação meio monárquica, quase um "não podemos rebaixar nossos nobres aos comentários da plebe"...

Adoro teus textos, até a próxima!

LD. disse...

Olá, Águeda,
Pois é, o trecho que você destacou foi um dos que mais me chamou a atenção. E trata justamente de uma das particularidades específicas da internet que gosto discutir. Afinal, em que outro veículo ou meio de comunicação você lê ou escuta um texto e em seguida tem acesso aos comentários dos leitores de forma tão imediata?

Não tive como não concordar com a Lucia. Não acho que ela tenha depreciado os leitores, nem colocado os articulistas/jornalista/etc como uma categoria superior ou coisa parecida. Tanto que ela destaca aqueles leitores que querem realmente se expressar através de um comentário, seja concordando ou discordando do autor, e são colocados ao lado do sujeito que se vale do anonimato proporcionado pela internet e xinga, distorce, ofende... destila ignorância, ódio.

Já cansei de ler bons artigos, boas matérias, bons post ou simplesmente notícias, especial e particularmente sobre homossexualidade, seguidos de dezenas daqueles comentários apocalípticos (tipo "fim do mundo", "fim dos tempos", "falta deus no seu coração", etc), fascista (tipo "morram todos", "anormais", "aberrações", "safados", "nojentos") e por aí vai... Nem sempre o autor do texto interage ou responde, aliás quase nunca.

Então, ao lado de uma informação válida, você coloca um monte de ranço, preconceito e desinformação. Mesmo espaço, mesmo destaque. Isso é bom? Isso é mau? Essa parte dos comentários também não mereceria atenção e critério? Isso deve ser repensado ou deixa tudo como está?

Enfim, considero que cada meio de comunicação tem suas especificidades e requer as reflexões que se mostram necessárias. Considero também que igualdade significa possibilitar a todos o melhor.

Fico sinceramente feliz que você goste dos meus textos e igualmente feliz com sua presença por aqui.

Até a próxima!

Mariana disse...

Taí um assunto que merece atenção. É triste perceber a divulgação de informações erradas ou distorcidas, por pessoas que se acreditam acima de julgamentos e acham que estão fazendo um grande papel na propagação de informações... erradas! blog, rádio, livro, jornal, qualquer veículo de comunicação deve ser tratado com seriedade por alguém que queira, realmente, divulgar informação. E isso, a meu ver, envolve conhecimento, comprometimento e, muitas vezes, pesquisa fora da rede, pra não sairmos falando besteira e propagando besteira..
valeu, dear..

claudia guay disse...

de disléxica vc não tem nada, menina!
adorei.
bjs.